O lado de lá

18/08/2015

Lembro, como se fosse ontem, o dia em que Toninho – homem que, por alguns anos, foi quase um pai para mim – me botou em seu colo para explicar por que ele estava indo embora. Quando ele disse algo parecido com “lá fora é diferente, mais difícil, complicado” eu, por impulso e inocência, olhei em direção ao portão. Ele deve ter rido, ao menos por dentro, depois me esclareceu: “lá fora” é uma expressão para o mundo, as outras pessoas, a vida em si.

Fico feliz por saber que tantos amigos, colegas, professores e pessoas que admiro são contra o impeachment da presidente Dilma e a redução da maioridade penal. Adorei ver a maior parte dessa gente querida mostrar lucidez e coragem durante as últimas Eleições. Foi linda a invasão das cores do Celebrate Pride, no Facebook, em apoio à legalização do casamento gay nos EUA. Sem dúvida, esses posicionamentos me agradam e apontam em direção ao que eu acredito serem os tais Direitos Humanos.

Mas essa maravilha toda não deixa de ser uma bolha, um consenso de apenas uma parte da sociedade que, no meu círculo, é formada majoritariamente por estudantes, acadêmicos e artistas da classe-média. Quando vejo que estou prestes a viver em uma realidade ficcional na qual existe igualdade de gênero, todo mundo pensa no bem comum e compartilha texto do Gregorio Duvivier, tento estourar, olhar de novo em direção ao portão, ver além dele…

Então deparo-me com uma utopia natimorta e penso em Toninho. Lá fora, como ele me explicou, é outra coisa. É mais absurdo que um texto do Ionesco. Lá fora tem gente protestando contra a corrupção vestindo a camisa da CBF – e, como se isso não fosse contraditório o bastante, lá fora ocupam as ruas pedindo a volta da Ditadura que, entre outras coisas, impede as pessoas de ocuparem as ruas. Lá fora a perigosíssima mistura entre dinheiro, poder e fé embriaga quem deveria, com seriedade e lucidez, defender as necessidades do povo.

Lá fora tentam criminalizar a juventude preta e pobre do país, normatizar o amor, retroceder a qualquer custo. O racismo se institucionaliza no esporte, na internet e na previsão do tempo. A homolesbotransfobia é disseminada diariamente sob o aval de partidos políticos e igrejas. A xenofobia fere o haitiano que acabou de imigrar e o índio que chegou antes de todos. O machismo violenta mulheres em casa, no trabalho, no metrô. A polícia atira em seu o próprio coturno.

Não se pode reduzir a imensa complexidade do Brasil a um “Fla-Flu” direita x esquerda. A bactéria da alienação infecta a refeição de muitos brasileiros, seja ela feijão com farofa ou foie gras. É preciso resistir à tentação de um ponto de vista único para que a crítica ao vidro blindado do vizinho não se transforme em mero recalque de quem, no fundo, também acredita que apenas suas opiniões têm valor. Mas, se lá fora o silêncio é perverso e o berro é irracional, fica difícil olhar da janela sem sentir repulsa.

Até porque, geograficamente, sem a metáfora do Toninho, lá fora é aqui dentro.

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Texto sobre outro

21/04/2015

Minha primeira peça de teatro não foi infantil, mas foi na infância. Escrevi a história de uma menina que deixou água parada no quintal, foi picada pelo Aedes aegypti e pegou dengue. Uma tragédia – e foi mesmo –, com direito a coro e corifeu (mesmo eu não sabendo o que era isso na terceira série do fundamental). Pagava por uma foto ou vídeo desse “espetáculo” de apresentação única no pátio da E. E. Prof° Oscar Arantes Pires.

Se essa incursão na dramaturgia conta, hoje cheguei perto de concluir um segundo texto. Digo “perto” porque, além das muitas dúvidas, uma cena, em especial, insiste em ficar mais aleatória que as outras. E eu quero tudo aleatório, mas em harmonia. Quero poesia no caos. Entre outras coisas.

Escrever “é duro como quebrar rochas”, afirmou Clarice Lispector. Acho que escrever para teatro é lapidar diamantes com faca de serrinha. Tratando-se de uma mera mortal como eu, então… A probabilidade de dar errado ou não dar em nada é imensa. Porém algo me fez imaginar tão claro e possível e provável e porquê não?, que só me restou escrever. “Só”.

Se a técnica é pouca, míngua ainda mais quando o ponto de vista da atriz, que quase sempre vê a cena do lado de dentro, tenta racionalizar um discurso que, provavelmente, surgiu de um fluxo de consciência. Ou quando a ansiedade em ver a coisa pronta faz com que trilha sonora e cenografia apareçam antes mesmo da dramaturgia ser finalizada.

Não é fácil. Contudo, percebi que o desejo de dizer determina o que (conteúdo) e como (forma) será dito. Que escrever até não sair mais nada, desistir e dormir sem culpa, funciona (nada como um dia após o outro). E que intuição e paciência são tão indispensáveis quanto caneta e papel – ou Word, no caso. Digamos que intuição é a caneta e, se faltar paciência, dá para rabiscar guardanapos.

Em meados de 2002, quando escrevi as primeiras falas de Ana (a menina que adoece no meu texto da terceira série), o tema da dengue era recorrente na minha cidade natal, São José do Rio Preto. Mais de uma década depois, o problema não só persistiu como se expandiu e tem preocupado muita gente em todo estado e na capital. Eu tive dengue, inclusive.

Coincidência, sim. Mas outro insight (acho essa palavra tão cool!) aconteceu em 2013, quando eu me encontrava em começo de relacionamento e perdidamente apaixonada. Previ o fim da minha “história de amor” por meio da ficção, nesse novo texto. Os personagens formam um casal que vive uma crise exposta através de fragmentos da memória de ambos.

ELA – Você queria estar aonde?
ELE – Não sei aonde, nem com quem, mas…
ELA – …mas não aqui, comigo.

Bingo.

Ainda que o trecho deslocado, citado no início, estivesse bem encaixado, eu não ousaria anunciar a conclusão. Periga eu deletar o arquivo amanhã mesmo do computador. Ou rasgar as páginas na primeira improvisação… Isso se eu tiver coragem de imprimir.

Trabalharei nisso – no texto e na ideia de mostra-lo –, pelo desejo que estou prestes a parir. Um dia levo essa carinha de joelho para passear no playground da dramaturgia contemporânea.

Por enquanto, fica esse ultrassom desesperado.

Menina, por que(m) você se depila?

08/03/2015

Sou uma garota com forte propensão genética a uma grande quantidade de pelos. Deve ser minha origem portuguesa. Uma vez, no clube, fui zoada por dois meninos que estavam atrás de mim na fila do tobogã. “Parece um macaco”. Desci chorando, não aproveitei o brinquedo, nunca me esqueci.

Meus pelos também foram motivo de provocação em uma briga boba com um colega na 5ª série do Ensino Fundamental. “Você tem pelos nas axilas” (Riso sarcástico). Hoje ele provavelmente nem se lembra disso, apoia a igualdade de gênero, mas eu nunca esqueci.

Na época em que esses dois episódios ocorreram, éramos crianças. Eles repetiam um discurso que ouviram em algum momento da vida e uma parte de mim achava que eles estavam certos. O machismo aliciou nossa ingenuidade e isso, sem dúvidas, influenciou meu longo período como escrava da depilação.

Como não tinha idade para me depilar e sempre ouvi dizer que lâmina engrossava os pelos, a alternativa dada pela minha mãe foi a descoloração, mais conhecida como “banho de lua”. A reação alérgica era quase instantânea, dava uma coceira insuportável na pele, mas quebrou meu galho por um tempo.

Mal menstruei, bati o pé: “Agora eu posso, mãe!” Lembro até hoje da dor da primeira vez, na sala branca e esterilizada da Márcia. Meus olhos marejados e ela toda culpada, como se a culpa fosse dela. Virou uma necessidade, um vício. Não a dor, mas o resultado.

Depilava pernas, virilha e axila a cada três semanas, no máximo. O corpo todo pelo menos duas vezes por ano, nas férias, para poder usar biquíni sem correr riscos caso encontrasse tipos como o dos moleques (agora rapazes) do tobogã. Até o rosto eu fiz (só parei porque, na última vez, a reação alérgica evoluiu de um vermelhão temporário para uma tremenda formação de acne).

Eu via o natural como anormal e vice-versa.

Ainda besuntada de óleo de baunilha, me olhava no espelho e me sentia aliviada. Era esta a sensação: alívio. E enquanto os pelos tornavam a crescer, vivia resmungando que, se pudesse, entraria num galão gigante de cera quente, deixaria só cabelo e sobrancelha de fora e arrancaria de uma vez tudo aquilo que eu tratava quase que como uma praga em meu corpo.

“Você é a única pessoa que eu conheço que depila o ombro”, espantava-se Jaque, uma grande amiga e profissional da área estética, que me apelidou carinhosamente de Claudia Ohana. Nossos papos eram tão bons que depilar com ela parecia uma sessão de terapia.

Aliás, num geral, minhas conversas com as depiladoras sempre aliviavam a dor dos puxões. Cidinha, por exemplo, com seus discos de sons da natureza me matava de rir… Maria Célia, fofa, sempre estava interessada em saber como ia o cursinho, o teatro… Mulher é foda.

Mas, pensando friamente na minha compulsão, era uma babaquice e, o prejuízo financeiro, incalculável. Cenzinho por mês, no mínimo, viravam montanhas de papel melecado no lixo do salão. Hoje em dia eu me depilo, sim, por mim, mas quando tenho vontade, tempo e dinheiro sobrando. Deixo quinze reais na Gardênia (trinta, no máximo), e só depois de cultivar a natureza por um bom tempo junto a mim.

Dia desses meu pai flagrou minha axila e bradou: “Dá para enrolar bob!” Tive vontade de iniciar uma conversa, mas me lembrei dele tentando me impedir de andar de skate e fazer capoeira na adolescência. “Esporte de homem”. Desisti. Da briga, não do esporte. Respirei fundo, falei tchau e comecei a escrever esse texto, assim posso atingir mais gente. O machismo não é só um problema dele. É um problema nosso.

Há alguns meses, passei no local de trabalho da Jaque, não para me depilar, apenas para vê-la e colocar o papo em dia. Na despedida, o assunto “pelo” acabou surgindo e eu disse que, agora, tenho um novo olhar sobre eles, não os tiro mais com tanta frequência. A recepcionista do local ouviu e, indignada, me questionou: “Como você vai arrumar um namorado desse jeito?”

A gênese desse pensamento é a ideia de dependência e submissão. Pelo é só um dos itens modernos de uma check-list enorme que, há séculos, insiste em padronizar o comportamento feminino. Por isso, o principal desafio do feminismo é, justamente, conscientizar mulheres.

As que, como essa moça e eu, até pouco tempo atrás, nunca pararam para pensar e questionar porquê PELO DE HOMEM = PELO e PELO DE MULHER = SUJEIRA (entre outras convenções patéticas);
Aquelas que se acostumaram com o desconforto e não enxergam a falta de respeito (em casa, no trabalho, na rua, no metrô) nem a importância da luta por igualdade de gênero;
Sobretudo as que consideram esse movimento uma forma de ataque “sem precedentes” à família, à moral e aos bons costumes cristãos.

O feminismo precisa delas.

E elas, embora ainda não saibam, precisam urgentemente do feminismo.

Sábado

10/11/2014

Hoje, porque amanhã isso vai ter/ser passado, como ontem foi domingo e isso quase já não tem importância. Hoje, tão pouco tempo depois e tanto tempo também, sabe? Seu cheiro aconteceu de repente, 16h51, no primeiro degrau da minha vontade de chorar. Outro soco no estômago: não esqueço de lembrar que eu só fico oca porque ainda tenho fé nesse sim.

Eu estava na esquina da Paulista onde qualquer pedido de ajuda vira Consolação. O mendigo ajoelhou ao meu lado e implorou: dez reais. Foi sincero e confuso. Dá dez reais para eu comer/tomar uma cachaça/eu fumo pedra/olha a pedra aqui na minha mão/pedir não é roubar/dez reais/eu quero um copo de leite, cantava.

Depois dele, vieram outros três, mais contidos.

Do nada brotou uma senhora daquelas conversadeiras e modernosas, que pintam o cabelo de loiro na tentativa falha de aparentar menos idade. Ela se gabou por ter vindo a pé da Brigadeiro até onde estávamos e eu achei graça. Você sabe como faz para baixar vídeo do YouTube? Eu disse a ela que não baixava vídeos, mas que antigamente usava o RealPlayer. Como? R-e-a-l-p-l-a-y-e-r.

Subimos no 7282.

Ela se acomodou apressada em um dos assentos preferenciais próximos ao motorista. Eu passei a catraca e fui para os fundos. Depois da curva, sem desrespeitar o itinerário, o ônibus parou no ponto do Hospital das Clínicas. Subiu um homem esguio, quase velho, que atravessou o corredor feito uma bala e sentou também na última fileira, deixando uma poltrona livre entre nós.

Nessa poltrona ele jogou uma sacola branca de plástico. De dentro dela, enquanto murmurava coisas ininteligíveis, arrancou alguns pertences pessoais. Com urgência, dobrou uma calça social preta, desdobrou uma camisa vermelha de tecido pobre e, do bolso dela, tirou um punhado de papéis picados.

Misericórdia. Louca… Tem que ir para o hospício! Mulher louca. Nossa… Rasgou tudo… Nossa senhora! Misericórdia. Como é que arruma emprego sem RG? Misericórdia. Nossa senhora… Exclamava o homem esguio, quase velho, cada vez mais perplexo.

Ele passou todo o trajeto assim: lamentando os limites de uma mulher em fúria e tentando montar o quebra-cabeças de sua identidade.

Próximo à rua das Luminárias, ele juntou tudo, voltou o maço de papeizinhos ao bolso em que estavam e saltou, sem rumo. Por instinto, me certifiquei se algum pedaço do documento havia caído no chão do veículo. Nenhum dígito. O que é que esse cara cortou ou quebrou na vida da louca para ela ter picotado algo tão banal, mas tão importante, como o Registro Geral?

Chego em casa, mas não chego a nenhuma conclusão.

Misericórdia. Só penso em durex. Afinal, amor não tem segunda via.

Meia dúzia de pãozinho

26/08/2013

Suco, frutas, chocolate, iogurte, miojo, pão, atum… Faltava o queijo. Para minha sorte, só tinham duas pessoas na fila do balcão de frios. Para meu azar, a mulher em minha frente resolveu levar comida para um exército. Queijo branco, peito de peru sem casca e outras três peças que desconheço. Tudo isso aos montes e fatiado sob as mãos de apenas uma funcionária. Tirei precipitadamente os fones do ouvido: demorou um bocado até chegar minha vez de pedir.
Enquanto a música ia virando um zumbido ininteligível dentro da cesta, um casal de velhos extremamente singular passou entre a lateral das gôndolas de leite e eu. À primeira vista, os dois me pareceram um tanto quanto altivos. Ela, com chapéu e grandes óculos escuros (às cinco da tarde e num lugar fechado), carregava uma espécie de mau humor nos lábios. Ele, grande, de boina e óculos de grau, pareceu-me soberbo e de poucas palavras. Posicionaram o carrinho de compras atrás de mim e começaram a olhar as bandejas à mostra.
Assim que os dois travaram um embate sobre mortadela, meu pré-conceito virou pó e tive de segurar o riso. Ele quis contatar a funcionária, saber os preços, mas a velha recomendou que levassem uma das embalagens que já se encontravam ali. Parecia não querer esperar mais. Insistiu tanto, que ele acabou cedendo. Em partes, afinal não arredou o pé da fila. Desconfiado da frescura do produto o qual não presenciou o corte, pegou uma Seara só para a mulher parar de falar.

Próximo, disse a funcionária.
100g de mussarela, por favor. Essa em oferta, pedi.

Preferi não mais tentar adivinhar o que quer que fosse sobre aqueles senhores. Já com minhas primeiras impressões destruídas, passei a observá-los, como de praxe, na tentativa de entende-los, enquanto aguardava o queijo. O modo como ele agiu e o porquê dela não ter reagido mereciam ser estudados por alguém tão pleno de interesse e tédio como eu. Foi uma ação estranha, sem reação… Pareceu aquele truque batido de fingir um arremesso a um cão que sabe perfeitamente que a bola ainda se encontra na mão do dono.

Vai pegar pão, ele disse, com resquício de sotaque italiano. Quatro pães.
Quatro? Não quer meia dúzia?, a velha contestou.
Não. Quatro está bom.

Ela não foi. Não ia, simplesmente. Dava dois passos e parava nos bolos. Voltava, tentava mais uma vez e parava nos biscoitos.

Eu não pedi biscoito. Eu pedi pão, Odalia.
Vamos lá, então.
Não tem como irem os dois, ele disse. Se eu sair daqui, alguém pega o meu lugar. Vai lá você… Tá vendo aquele moço? Pega meia dúzia de pãozinho com ele… Moço, dá meia dúzia de pãozinho pra ela. Meia dúzia de pãozinho, insistiu.

Quando quatro virou seis, notei o que motivava a confusão. Quase que simultaneamente entendi e ouvi dele: Alzheimer. Fazia já seis anos que ela apresentava sintomas. Não assimilava mais o pedido nem a ordem. Tempo e espaço deturparam-se. Num dia desses a encontraram na Avenida Pompéia, perambulando, sozinha, depois de sair do mesmo mercado, em outra conflituosa compra.
Enquanto a moça fechava meu pacote, parabenizei o velho por seu temperamento. Ele acabou recusando meu cumprimento, ignorando-o, e demonstrou que sua paciência era natural e, sua luta diária, falta de opção. De qualquer forma, vi naquele homem um exemplo puro de lealdade, um companheiro – e, onde quer que aquela mulher esteja dentro dela mesma, com certeza o enxerga da mesma maneira. Ela voltou com o saco pardo, finalmente, depois de o marido ter de sair de onde estava e quase perder a vez nos frios. Agora ela queria levar Coca-Cola.
No caixa, lá estavam eles: novamente atrás de mim, debatendo sobre como as compras deles poderiam ou não se misturar acidentalmente às minhas. Ela estava apavorada. Ele começou a transferir os produtos do carrinho para a esteira, deixando o espaço que ela tanto reivindicara entre as nossas coisas. Por fim, o velho deixou de lado aquela primeira embalagem de mortadela, e a mulher, que nem lembrava mais de pão, nem Coca, nem fila, voltou-se a um mundo onde não há necessidade de pesar maçãs.

Terroristas

14/08/2013

Das duas, uma: ou brasileiro tem dificuldade de enxergar os absurdos que ocorrem no país, ou tem facilidade para esquecê-los.

O cara é visivelmente racista e homofóbico e é eleito para presidir uma comissão que avalia ameaças aos direitos humanos – inclusive e com destaque aos direitos de minorias étnicas e sociais. Ele – que, a meu ver, é a própria ameaça – assume o cargo e declara que, antes, a Comissão de Direitos Humanos e Minorias era “controlada por satanás”. O Estado é laico e o cara fala de deus em discussões e declarações nas quais deveria portar-se como deputado federal – não como pastor. Vídeos de suas pregações surgem na rede e neles o cara afirma que deus matou John Lennon e os Mamonas Assassinas – e que a música “Sozinho” só fez sucesso na voz de Caetano Veloso por causa de seu “pacto” com Mãe Menininha do Patuá. Também tem o projeto de cura gay, aprovado por esse cara e por suas ovelhinhas da bancada evangélica, e a mais recente pérola: o cara relativizando casos de estupro, no Twitter.

Sim, falo desse cara (de pau) mesmo: Marco Feliciano.

Na última sexta-feira, esse ilustre enviado do senhor (com sua barbicha milimetricamente aparada) estava num avião que foi de Brasília à São Paulo. Munidos de câmeras e de coragem, dois passageiros usaram momento, banda e música perfeitos para protestar contra o sujeito durante o voo. Dirigiram-se à poltrona do mesmo e cantaram “Robocop Gay” para ele. Feliciano foi ao inferno por alguns minutos em pleno ar.

“Vinde a mim os coxinhas!”

O primeiro coxinha surge no próprio vídeo, atrás do pastor. Fala uns blábláblás como “vocês estão me incomodando” e bate a mão na câmera. Depois apareceram outros milhares, na internet, repudiando a ação dos garotos e dando apoio aos comentários do deputado sobre o fato. Um colunista da Folha de S. Paulo chegou a chamar os meninos de fascistas.
Esses coxinhas e o rebanho do Feliciano devem estar lendo muita Veja ou a bíblia para não saberem que dois caras “pulando” daquele jeito não derrubam um avião de milhares de toneladas. Provavelmente também desligaram a tv logo depois do Faustão e perderam uma velha (porém boa, acredite) reportagem do Fantástico sobre o caos aéreo brasileiro.
Se bem me recordo, o total de controladores de voo do Brasil trabalha bem abaixo do número ideal e, por isso, são sobrecarregados. Além disso, basta olhar pela janela por 5 minutos em São Paulo para se saber que seu céu também sofre de congestionamento. Isso, sim, daria margem para uma tragédia, bobinhos.

E a “heterofobia”?

“Heterofobia” integra o dicionário de ignorantes, juntamente com a expressão “orgulho hetero” e palavras como “anormalidade” e “doença”. Alguns heteros (preconceituosos, machistas e sem o que fazer da vida e do cérebro) achavam que a liberdade sexual dos outros poderia prejudicar as suas e inventaram essas bobagens. Mitos.
Afinal, não conheço nenhum hetero que tenha medo de passar em determinado lugar ou de andar sozinho em determinado horário do dia porque tem medo de ser espancado. Nem um hetero em tratamento por contaminação de viadagem. Bom senso é tudo, minha gente.

A respiração deste senhor Marco Feliciano já é uma espécie de violência. O que ele diz já deveria ter sido levado aos tribunais como crime de opinião. Ele é uma espécie de Hitler da ditadura heteronormativa. Junto a Silas Malafaia, Jair Bolsonaro e outros, tem fomentado um holocausto ideológico contra homossexuais.

Um pai de família e uma mãe de outra não podem, sozinhos, praticar males à comunidade (nem à LGBT, muito menos à heterossexual). Eles vão, no máximo, não aceitar a sexualidade de seus filhos – caso ela não siga o padrão Adão e Eva – e fazer da vida deles um inferno.
Entretanto a fonte do não-entendimento tem alto poder de controle sobre muitos (!) pais e mães, e é por isso que a ideia deturpada que esses líderes político-religiosos propagam sobre os gays precisa ser combatida. Não é a vida de um ou dois filhos gays que é arruinada diariamente pela simples frase “não aceito”, mas de milhares.
O Brasil, a Rússia, o mundo precisa passar por turbulências, precisa abrir os olhos, precisa entender que não há controle sobre tudo. Enquanto preconceituosos falam o que querem (e quando ouvem o que não querem, recebem apoio), a sociedade aumenta a ignorância para com ela mesma e se arrisca a sofrer enormes retrocessos relacionados às questões de gênero – em tempos de conquistas e buscas por igualdade ainda mais e melhor articuladas.

Quase tudo o que Marco Feliciano diz me atinge de alguma forma. Até hoje tudo o que fiz “contra” ele foi protestar nas ruas e nas redes sociais, como agora o faço. Se quem teve chance de fazê-lo cara-a-cara aproveitou a oportunidade – ainda que sendo duas pessoas apenas, e dentro de um avião –, meu dever é aplaudir.

Se eu estivesse lá, teria me juntado à eles.

Por muitos fios

24/07/2013

Recalque assumido é recalque perdoado – acabei de inventar. Verdade ou não, assumo o meu: queria ser ruiva, minha mãe sabe. Nem precisaria ser o lindo ferrugem Wella da Marina Ruy Barbosa (que atualmente interpreta a Nicole, em Amor à Vida). Ah, não! Seria pedir demais. Eu me contentaria com um tom meio Amy Adams, ou Kate Walsh, ok Deus? Brincadeira. Convivo bem com meu castanho-claro, mas também devo assumir que já pintei de vermelho uma vez. Com papel crepom.
O fato é que, cabelo é cabelo, para bem ou para mal: no primeiro caso, “é tudo”, “é o cartão de visita”, “faz toda diferença”. No segundo, o consolo é a simples frase “cabelo cresce”. Esse último é praticamente exclusivo dos homens, já que, em sua maioria, não cultivam longas madeixas. Muitos, de tempos em tempos, livram-se do comprimento grande alegando que os cuidados exigidos os cansam. Outros, vendo a cabeça lisa de seus pais, trabalham o desapego desde já.
Com mulher é diferente. Mulher é mulher. Aliás, mulher é cabelo. Eu, se tivesse uma cabeleira cor-de-fogo como a da Marina ou da Juliane Moore, com certeza hesitaria em responder ao diretor que me propusesse ficar careca por uma personagem. Até com meu castanho totalmente comum rolaria uma tristeza. Muita coisa pesaria na decisão. Autoestima, imagem, próximos contratos…
Muitas coisas, além dessas, devem ter pesado para a Marina também. Para ela e para todas as atrizes que passaram a máquina no zero em nome da arte – a Babi, do programa Pânico, não conta. Falo de arte, de gente que faz arte, faz de tudo por ela e dela vive. Quem tem certeza disso, que pertence à isso, pode até titubear – mas depois responde “sim”.
Acontece que, quando não se tem escolha, não há salário nem estética que evite a careca. Sem querer julgar a escolha da Marina (que optou pelo “não”) ou a do Walcyr (que, pelo que li por aí, mesmo de mau-gosto acatou o “não” da moça), e evitando demagogia ao citar mulheres e crianças vítimas de câncer, quero falar de alternativas. Quem passa por quimioterapia não as têm, dependendo da quantidade e da intensidade das sessões.
E as atrizes?

“Acho muito fácil” (diria Tati Piriguety, um dos personagens da Tatá Werneck na MTV) estar “No Alvo da Moda”. O difícil, com certeza, é vestir a camisa.

Bem, acho que Dionísio escolhe por elas. Demi Moore (em Até o Limite da Honra), Angelina Jolie (no magnífico Gia), Natalie Portman (em V de Vingança) e Charlize Theron (para Mad Max, com lançamento previsto para 2014) são exemplos dessa entrega. As brasileiras Bruna Di Tulio (para a novela Máscaras), Camila Morgado (no incrível Olga) e, claro, Carolina Dieckmann (em Laços de Família) também merecem – e como! – ser lembradas por suas honrosas atitudes artístico-radicais. Atrevo-me a pedir aplausos à todas essas mulheres. E quem se recusar, favor tentar ouvir “Love By Grace” sem a imagem mental da personagem Camila perdendo os cabelos. Força na peruca.
Talvez pela pouca idade, ou por não ter a certeza que citei antes, Marina blefou. Atriz é atriz. Pelo talento indiscutível que ela tem, daqui a uns anos pode bater um gostinho de arrependimento. Normal. Aqui bateu um gostinho de frustração… De quem acredita que a dor fictícia da Nicole ajudaria na superação de dores reais por aí… Que acha que seria uma experiência única para a própria Marina, pessoal e profissionalmente… E de quem não tem dúvidas de que seria bonito e emocionante assistir essa cena. Valeria a pena ver “de novo” – ainda mais numa versão cobre 7.

Não cabe

15/04/2013

Uma maré de azar me arrasta. Nuvens carregadas sobrevoam meus olhos, ameçam dispencar mas ficam assim, cheias e paradas, sem entender ou chorar. Centenas de milhares de gotas caíram lá fora; rápido o bastante pra eu não conseguir descer e tirar as roupas do varal, lento o suficiente pra molhar todas elas e me acusar de estar seca. Um vento soprou algo ininteligível em meus ouvidos e se foi. Tive vontade de olhar pra trás mas ela também se foi. Adiantaria? Existe um rastro, ao menos, que indique culpa em alguém? Em quem? Da onde vem esse frio? Cadê você?
O tapete tem suas duas faces sujas. Não importa se é turco ou persa. A poeira é de São Paulo; do centro dela, do meu estado, do nosso interior, mas também não importa. Nada mais importa agora. O teto deu à luz a uma nova goteira. Um balde foi adicionado à decoração da sala. Agora são dois baldes e uma panela torta, que não combinam com os outros objetos (mas, até aí…) A decoração não combina, a gente não combina, vermelho e rosa não combinam. Rosa, aliás, não combina com nada. Rosa é morno. Ana Carolina que me perdoe mas nem toda mulher gosta de rosa. Eu sou mulher e odeio rosa. O rosa não me representa. Uniram o útil (branco) ao agradável (vermelho) e deu merda (rosa). Rosa é falta de opção e comodismo. Rosa me incomoda. Outra cor, por favor.
Chove e as fechaduras ficam chatas. Não se tem paz deixando aberto, impossível cerrar indolor. Se há quem as feche sem que se esforce muito, meus parabéns. Tenho T.O.C. (Transtorno Obsessivo Compulsivo) e, por isso, não me contento em apenas trancar. Volto pra conferir duas, três vezes. Dou trabalho pra intrusos. (Mas se têm olhos verdes e bom papo, são bem vindos e até ganham uma cópia da chave depois…)
Ganham e perdem. O problema não é, nesses casos, a invasão, mas o descaso. É lindo ser invadido pelo turbilhão de gestos, palavras, ideias, cheiros e gostos que acompanham uma pessoa. Mas se ela vem, me ganha, me leva, leva tudo, leva a chave e a esquece em qualquer lugar, deixa cair, pisa, joga no lixo sem querer querendo quando menos se espera, é justo? Essa não é retórica e vai para os chaveiros: é justo? Vocês, que trabalham dia e noite com formas e fôrmas, que derretem e submetem o latão a um processo que se transforma em ranhuras e delas faz-se um código único, o qual permite que o indivíduo possa entrar e sair em seu lar e no lar do outro quando bem entende, acham que é justo? Mandem suas respostas por comentário ou no meu e-mail (porém suspeito que vocês disseram “não”).
Não é justo. Quem se descuida e é permissivo, quer cuidar, ser cuidado e, mais ainda, ver permissividade. Não com o hino de Lulu Santos da boca pra fora. Viver tudo o que há pra ser vivido não é fácil. Incompetentes deveriam ser proibidos de pular muros altos e de abrir cadeados em vão. Incompetentes tinham de ser, por natureza, incapazes. Poupar-se-ia tempo e saúde de pessoas que, mesmo de um jeito torto, estão preparadas e dispostas a construir, reformar e manter uma história. Seria evitada essa bagunça – goteiras e muita frustração – em todos os cômodos da casa de seres que só querem amar, não pedem nada além de amor, mas só têm suas energias esgotadas.

Atesto o lampejo e o troféu

09/10/2012

Lampejo no qual sua única preocupação foi arrumar um lugar escuro e escondido pra me dar um beijo, e a minha foi fazer esse beijo durar até sabe Deus quando, até o próximo ano bissexto, até quando a gente quisesse, pudesse, aguentasse, e nele, entre água e cílios, veio o frio-na-barriga, velho conhecido dos apaixonados (que mais precisamente é um frio-entre-o-umbigo-e-a-virilha-mas-bem-lá-dentro), enquanto eu sentia a sua língua detonando o resto de dignidade que ainda me restava quando eu vagamente me lembrava da pessoa a quem eu devia, depois, explicar o porquê estava, agora, com você e não com ela, ou com quem eu estava, ou a razão do meu atraso, o que acabava me aborrecendo e até doía, mas o tal frio-entre-o-umbigo-e-a-virilha-mas-bem-lá-dentro era muito maior que a dor, durava mais, durava a duração do beijo, então fui esquecendo dos aborrecimentos que estavam por vir, da pessoa, das pessoas, de todas as pessoas do mundo, e seu nariz foi escrevendo por sobre o meu seu nome (o que só me fazia lembrar de você, que existia você, que você existia, que só você existia, que existia você e só, comigo, e só), e sua mão na minha nuca dizia que você não queria que aquilo acabasse, e eu respondia te segurando firme com os meus dois braços pela sua cintura, esperando que você entendesse que aquilo significava que se dependesse de mim aquilo (tudo) jamais chegaria ao fim porque, meu Deus, se toda tristeza do mundo é falta de amor, e amor não nos faltava, não poderiam nos condenar por algo tão doce que é a alegria de amar, e me deu uma vontade imensa, absurda de grande, de gritar que toda a parte atroz do mundo havia sido derrotada ali, naquele beco, por aquelas duas almas frágeis e menores de idade, mas, não, a vitória delas está atestada através de uma história (ou texto) sem pontos finais, porque eu jamais nos interromperia

Reciclável (Até quando?)

17/09/2011

Se você estivesse aqui, teria rido da muralha de papel que se formou na cama depois do limpa que eu fiz no armário. Você deve estar rindo também agora pelo termo ”muralha” (você sempre me chama de exagerada)… Eu não pesei, mas, juro, deve ter dado mais de um quilo!
Quis eliminar lixo – e lixo, por definição, é sujeira, coisa sem valor ou sem utilidade – mas só achei excessos de você. Excessos de você que eu mesma passei para o papel por meio da tinta na tentativa de amenizar os excessos de você em mim. Rasguei cartas, desabafos e um desenho – folhas meio sujas, sem valor e sem utilidade – mas que, com certeza, no dia em que foram feitas, faziam sentido (assim como nós).
Se você estivesse aqui, essas coisas não existiriam. Não haveriam motivos para tantas reclamações e cartas não entregues, consequentemente uma varredura seria desnecessária e meu tempo seria ocupado com outra coisa.
Coincidência ou não, joguei junto um relógio, ainda novo, porém parado nas horas (assim como nós).